29 de fev de 2016

Masculinidades e os cantores da diversidade

Os Inclassificáveis

Entre as variadas formas de se abordar a questão das diferenças (de gênero, cor/ raça, idade, origem, etc.) uma delas tende a enfatizar o aspecto multicultural que usualmente caracteriza a tal 'sociedade'. Celebra-se assim nossa tão falada diversidade, contestando o simples e fácil costume de separarmos tudo maquiavelicamente, entre o bem e o mal, o certo e o errado, o bonito e o feio, e ampliando feito lupa o riquíssimo espaço entre estas polaridades.

É quando não encontramos respostas imediatas para as aparências e atitudes fora do convencional que nos deparamos, restando apenas a frustrante comparação com semblantes e 'silhuetas' parecidas, como fazemos com os artistas que transitam entre os universos feminino e masculino, dizendo que são, no mínimo, discípulos de Ney Matogrosso, David Bowie, Prince, Marilyn Manson, Boy George e, claro e sutilmente, o lendário e saudoso Michael Jackson, entre os homens que experimentaram ser diferente do velho terno e gravata, do papai-mamãe ou de qualquer aprisionamento na suposta normalidade masculina.

Titubeamos ao definir o que seria "homem", mas nos referimos constantemente a esta tal figura, em diversas situações do dia a dia, incluindo quando chamamos uma mulher de "maria homem". São certas atitudes e visuais predefinidos como de homem ou de "macho", ainda que consideremos todas as suas nuanças (ou masculinidades), entre o macho alfa e o transgênero, passando inclusive pelo chamado metrossexual.

Não é de hoje que a moda comprova que há uma latente predisposição em sermos unissex, onde as peças do vestuário não precisam ser, necessariamente, 'azul' ou 'cor-de-rosa'. Mulheres usam calças, camisas, gravatas e até cuecas. Já os homens, por força do machismo secular, ainda são resistentes ao uso de saias, mas já se mostram atraídos por depilação íntima, pinçar as sobrancelhas, usar vestes e túnicas, camisões-vestido (camisetas oversized), fazendo-nos acreditar que logo teremos saiões e vestidos florais também entre as peças do guarda-roupa masculinoVeja também: Spandex, Skinny... e a moda da calça apertada

Ney Matogrosso - Homem Com H

Assim, vestidos, túnicas, saias, turbantes, maquiagem, sapatos de salto alto, esmaltes e brincos, muita sensualidade e, às vezes, com agudos capazes de impressionar toda uma orquestra, inclusive as sopranos (Edson Cordeiro que o diga!), uma nova tendência aparece entre os cantores da música brasileira e mundial, sobretudo a pop music. Eles cantam, são talentosos e apresentam ao mesmo tempo uma imagem intrigante para os conservadores de plantão. Como se não bastasse a figura híbrida masculina / feminina, outra característica que reúne os artistas que serão citados aqui vem do comportamento, da postura no palco e como centro das atenções, nas frases ditas em entrevistas, discursos e apresentações que reforçam ainda mais esta espécie de "insulto à tradicional família brasileira". Na verdade, apenas para desmistificar tudo isso.

Entre gays e machos, outro comportamento bem contemporâneo aos nossos dias ganhou o nome de crossdressing, onde o prazer é conquistado quase que exclusivamente pelo fato de estar travestido, vestindo roupas e acessórios ditos femininos, e se comportando como mulher. Um ato subversivo, contestador, até então parafílico e genuinamente fetichista, podendo ser vivido o tempo todo ou limitado em ocasiões especiais, a fantasias ou ao lúdico.

Elton John – One Day At a Time

Contudo, não se trata de transexuais, que se enxergam como mulheres e buscam a adequação física a este gênero. Os cantores citados a seguir são homens, que se vêem como pessoas dispostas a usar qualquer coisa que venha apetecer, bem como se comportar da maneira que achar melhor, independente de agradar ou não os padrões impostos ao longo dos tempos pelos 'donos do mundo'. Também não chega a ser uma panfletagem no estilo Village People, com caricaturas e esteriótipos, bem alinhados com o que espera e é visto pela tal "sociedade conservadora": o deboche. Numa época em que andamos em direção à liberdade entre os gêneros e, especialmente, à inclusão social de todos os tipos e modos, a visibilidade desses artistas acaba influenciando positivamente não só a cena musical, mas também a sociedade, de forma bem mais ampla.

Também não temos aqui, necessariamente, os mesmos traços musicai, já que, ainda com aparência igualmente andrógina ou efeminada, vão do popular ao erudito, abrangendo diversos estilos e referências da Música. Talvez o rico conteúdo artístico, o gosto pelo visual e pelo conceito, o apelo homoerótico ou queer e o posicionamento antenado ao top fashion, ao glamour, sejam algumas das especificidades deste gênero, por sua vez, sui generis (de gênero próprio ou o único do seu gênero), florescendo inicial e inevitavelmente ativista, e se mostrando cada vez mais normal (não de 'norma', mas de comum) para a sociedade, haja vista que são citados cantores já populares.


Liniker

“As pessoas precisam saber que eu sou negro, pobre, gay e posso ser uma potência também. Sou um artista que se expressa assim. Então, se você está aí, se sente reprimido e tem vontade de colocar seus demônios para fora, mostrar quem você realmente é, coloque-se. Esse é um dos meus maiores desejos como artista desta geração. (…) O corpo é meu. Eu que tenho liberdade sobre ele. Se tenho minha inteireza, por que você quer colocar seu bedelho em mim? Quem é você para ditar regras que eu tenho que seguir? Cada um é cada um, cada corpo é uma história”. – Liniker em entrevista para El País. Com sua voz poderosa e grave, levemente com a rouquidão dos cantores de soul, o lançamento do EP Cru (2015) colocou Liniker entre as melhores e mais emblemáticas novidades do momento. Ao lado de sua banda  Liniker e os Caramelos, a revelação musical, que ostenta a diversidade de gênero, se diz pronta para decolar na carreira artística e no mundo.

"Comecei a compor aos 16 anos. Eu escrevia cartas de amor também, que não tinha coragem de entregar para os caras de quem gostava. Até que entendi que tinha que botar isso para o mundo, de alguma forma. Ano passado, depois de um ano estudando em São Paulo, fui para Araraquara e conheci o Guilherme Garboso, o baterista da banda até pouco tempo atrás, e disse para ele que queria produzir minhas músicas, que tinha essas letras e precisava que a gente fosse pela vertente do soul e da black music. Queria que as pessoas sentissem como eu me sinto quando escuto esse tipo de música: uma coisa que pulsa, que não tem como conter. Começamos a trabalhar em fevereiro e ensaiamos até julho. Em outubro, lançamos o EP com três músicas: Louise do Brésil, Zero e Caeu. Todo o processo foi muito colaborativo, como minha experiência de estudo na Escola Livre de Teatro de Santo André. Convidamos pessoas que queriam trocar artisticamente e aí rolou de forma muito orgânica."


Liniker - Zero


Johnny Hooker

Este já foi comentado na postagem Música: Johnny Hooker, outra revelação entre os cantores da Nova MPB. “A música é muito machista e controlada pelo produto, por coisas que dão dinheiro. As pessoas que chegam com apresentação forte, maquiagem, brincadeira com gênero, com personagens, às vezes são recebidas com muita falta de respeito. (…) O meio da música é muito machista. Você só encontra mulheres como cantoras. É difícil encontrar em outras funções ou instrumentos. Estou muito inspirado também pelo tema, porque fui assistir a Mad Max e estou apaixonado por Furiosa. O mundo está mudando e sempre vai ter essa primeira reação de quem quer empurrar a roda da história para trás. Mas a roda vem com tudo e eu venho com ela”. – Jonny Hooker em entrevista para Diário de Pernambuco.

Seu primeiro álbum solo Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! (2015) foi 1º lugar geral no Deezer e a 14º posição no ranking geral do iTunes - logo nos primeiros dias após a exibição da música Amor Marginal na novela Babilônia, o álbum chegou a figurar no topo da parada MPB, indo para o 11º lugar geral. O mesmo álbum foi premiado no 26º Prêmio da Música Brasileira que, além de vencer como Melhor Cantor e Melhor Canção (Sedutora), Johnny ainda cantou Lama, ao lado de Alcione, para homenagear Maria Bethânia, sendo um dos grandes destaques daquela noite (10/6/2015).

Jonny Hooker - Volta (Trilha do Filme Tatuagem)

Em suas diversas aparições na TV aberta (Programa do Jô, Altas Horas, Encontro, Mais Você, Faustão), o debate nas redes sociais sobre diversidade e liberdade de gênero batia recordes, a medida em que se discutia sobre o figurino e performance de Hooker, que aliás, são deslumbrantes (ou um "Desbunde Geral").


Filipe Catto

“As pessoas sempre tentaram me encaixar em um estereótipo, porque era muito difícil pra elas entenderem minha voz. Pra mim, por exemplo, o fato de não me montar era a transgressão maior, porque tudo que se esperava de mim era exatamente que eu correspondesse a uma imagem feminina nas roupas e na maquiagem pra justificar minha voz andrógina, mas sempre achei que no meu caso isso seria redundante, clichê. O mais importante quando falamos de quebrar os paradigmas do gênero é questionar esses padrões pré-concebidos. No meu caso, as pessoas precisavam desesperadamente de uma “fantasia” porque o choque de realidade era muito confuso, muito fora do padrão. O repertório era fora do padrão, as referências eram fora do padrão. Nunca me senti exatamente encaixado, mas isso me fez achar um maneira própria de viver e de me expressar. Tem, sim, que se vestir como quiser, tem que se expressar como quiser, amar quem e como quiser. Não é mais uma questão de sexualidade, mas de identidade, e quando falamos de identidade estamos falando de liberdade, de originalidade. Com a musica aprendi a me expressar na minha maior diferença, e ali descobri que essa singularidade era minha melhor arma pra enfrentar o preconceito e a ignorância”. – Filipe Catto em entrevista para E aí?¿.


Filipe Catto - Dias e Noites

Cantor, compositor, pianista e violonista, Filipe Catto vem lançando suas músicas e álbuns desde 2006, mas só em 2010, quando o gaúcho se mudou para São Paulo, que seu trabalho começou a ganhar mais visibilidade. Em 2011 a música Saga entrou para a trilha sonora da novela Cordel Encantado (Globo), junto com  o contrato com a gravadora Universal Music, gravando seu primeiro álbum: Fôlego. Em novembro do mesmo ano estreou a turnê homônima no Theatro São Pedro, em Porto Alegre.

Além de Cordel Encantado, Filipe Catto tem mais três participações em trilhas sonoras: Quem é Você (Sangue Bom), Adoração (Saramandaia) e Flor da Idade (Jóia Rara), todas em 2013, garantindo ao artista uma excelente notoriedade popular.


Jaloo

“Sobre o meu visual, estou desconstruindo essa mítica do ‘bom selvagem’. Atualmente estou observando esses seres da floresta, que pintam a cara e saem fazendo ‘bububú’ nas baladas. Eles estão mais plastificados, montados e amontoados que a Barbie Califórnia. Então, vendo essas coisas, eu pensei: por que não plastificar literalmente esse ‘bom selvagem’ ou ‘mau selvagem’? – Jaloo em entrevista para Diário do Pará.

De Castanhal para o mundo, Jaloo, como o paraense Jaime Melo é conhecido no universo dos festivais independentes, moda e design, vem exercitando seu lado musical com uma série de versões únicas para hits, sejam eles covers, remixes ou mashups. Ele já juntou Flora Matos com MIA, fez o hit Wreckin Ball (Miley Cyrus) virar Bai Bai, regravou Baby (um clássico na voz de Gal Costa) e na sua lista de remixes não autorizados tem ainda Beyoncé, Donna Summer, Grace Jones, Robyn, Amy Winehouse e até (esse é oficial) Lucas Santtana.

Com lançamento do EP Insight, Jaloo faz sua estreia sob direção artística de Carlos Eduardo Miranda. São três músicas autorais, unificando a influência do tecnobrega com o pop atual, um toque das novas divas do R&B e muita eletrônica de vanguarda, com o cover Oblivion, de sua musa Grimes, dando uma prévia do primeiro disco completamente autoral. Apesar dos nomes gringos, apenas Downtown e Oblivion são cantadas em inglês.


Jaloo - Ah! Dor!


Rico Dalasam

“As pessoas polemizam e tratam como algo muito lá para frente. Só que é muito natural. Se você vir gay indo em show de rap, naturalmente vai ter gay produzindo cultura. Mas já era para ter uns 10, era para ter um monte de gente fazendo. Ninguém pega na mão de ninguém e fala ‘vem’ em movimento nenhum. A pessoa tem que construir o espaço dela é o que eu estou fazendo”. – Rico Dalasam para G1.

 Em maio de 2015, Rico Dalasam explicou o movimento Queer Rap no programa Esquenta!. Assim como o próprio termo queer, o artista quando assume e se apropria da própria verdade, transforma o que seria tabu ou preconceito em arte. Considerado o primeiro rapper gay assumido, Rico desafia a noção de normalidade na música e no gênero masculino, assim como inaugura a cena queer rap brasileira, seja da periferia, do gueto, local ou global. É um dos representantes do chamado "fervo", trazendo a música pop para a balada gay e, ao mesmo tempo, contribuindo nos debates sobre coexistência e ruptura, mas seria aquele que pertence a tudo e a nada disso.

Rico Dalasam participava das batalhas de MC do Santa Cruz, com Projota e Emicida. É também formado em Audiovisual, com propriedade de sobra para super produzir seus looks "bafoneiros", suas performances e videoclipes. De Gilberto Gil a Fátima Bernardes, de Globo a Carta Capital, o artista que estampa uma série de nós na garganta, já transitava em distintos ambientes, de públicos diversos, antes mesmo de lançar seu primeiro álbum: Modo Diverso (2015).


Rico Delasam - Riquíssima

Suas referências são misturas improváveis como Rick James a Racionais, Daniela Mercury a Mykki Blanco, um dos maiores nomes do queer rap nova-iorquino. Leva vestido unissex, roupa do Harlem, tênis de asinha e uma pitada de não-binarismo de gênero para a galera dita "careta".

Veja o que dizia uma matéria do Pragmatismo Político sobre o divo: "Em vez de procurar extremos nos dois mundos para opor um ao outro e legitimar-se no rap usando o discurso da vitimização, mistura tudo em um mesmo ecossistema no qual o vilão também pode viver dentro da vítima. 'Eu gostaria de dialogar com todos. Não existe esse cara mediador de conflitos que propõe novos caminhos possíveis. Isso porque, muitas vezes, esses conflitos se encontram dentro de um mesmo lar', diz." Ele nega todas essas noções de "normal" para trazer uma que é bem mais ampla: "o Brasil e o mundo precisam de novos sensos de normalidade. Teu corpo é livre: inventa o seu e aceite-se."


Daniel Peixoto

Outro do bom "fervo", capaz de misturar até folia de reis com música havaiana, o cearense Daniel Peixoto trabalhou na adolescência como modelo e VJ. Em 2005, junto ao DJ Leco Jucá, ele formou o Montage, banda de electro-punk tida pela revista Bizz como a "banda que faltava no cenário musical há, pelo menos, 18 anos" e, pelo jornal Folha de São Paulo, como "melhor show". Ele esteve também em uma lista de preferências musicais do cantor Justin Timberlake e foi comparado a David Bowie por um jornalista do The Guardian.

Em sua carreira solo, Daniel lançou seu primeiro CD, Mastigando Humanos, no Brasil e no mundo com o EP, Shine. Em 2011, quando esteve em turnê pela Europa, participou de uma votação feita pela MTV YGGY, de Nova York, sendo eleito o Melhor Artista da Semana. Com todo este sucesso, Daniel Peixoto desenvolveu a Shine Party, festa em Fortaleza que mistura música, moda e arte - a terceira edição contou com a participação da cantora Gaby Amarantos, haja vista que ambos compartilham da mesma vibe tecnobrega. Foi o vencedor do Prêmio Dynamite de Música Independente 2012, na categoria Melhor Álbum de Música Eletrônica, concorrendo com outros nomes de peso, como Gui Boratto. Sua música Olhos Castanhos entrou para a trilha sonora da novela Lado a Lado (Globo) e o novo single Shine teve seu lançamento logo em seguida, já em 2013.

Outra participação importante foi na coletânea Armazém 73, homenagem aos 40 anos do álbum Secos & Molhados, do grupo de Ney Matogrosso (a maior referência brasileira para o tema masculinidades) - a música gravada por ele foi O Vira. E, em 2015, Peixoto e Leco Jucá voltaram com o Montage, numa turnê especial intitulada (Re)Volta do Montage, em comemoração aos 10 anos da banda.

Shine - Daniel Peixoto e DJ Chernobyl feat Nayra Costa

Artistas drag queen e transexuais também vêm experimentando a autoria de hits dançantes, citando Aretuza Lovi, Mc Xuxu, Silvetty Montilla e a referência máxima RuPaul, entre outras divas da noite gay. Com experiência e presença forte no humor, entre atuações como apresentadora de show de boate, de TV, em festas, prêmios e concursos, elas levam toda esta irreverência também para o mercado da música, participando do glamoroso time de pop stars.

Mc Xuxú - Um Beijo (pras travesti)


David Bowie
Masculinidades

Andrógino é um adjetivo que se refere ao que apresenta simultaneamente características do sexo masculino e feminino. É o mesmo que "hermafrodita", termo melhor aplicado às espécies dos reinos animal e vegetal que reúnem em si os caracteres dos dois sexos. Mas, além do sexo, subdividido em dois pólos, macho e fêmea, o que chamamos de comportamento ou identidade pode ser infinitamente mais abrangente.

Por masculinidades, adota-se a estrutura teórica desenvolvida pela australiana Raewyn Connell (2005), para quem a masculinidade é uma configuração de práticas em torno da posição que os homens ocupam nas relações de gênero, isto é, práticas que os constroem enquanto homens, dentro de um eixo que atribui significados distintos àquilo que se entende como masculino ou feminino. Fala-se, evidentemente, das relações de poder que constituem o gênero, partindo de um referencial teórico atual e lançando-se aos desafios de compreender como as masculinidades não dependem unicamente das relações de gênero, mas são também interpeladas por outras categorias como cor / raça e classe social, ainda que essas categorias não se somam como num colar de contas. Pelo contrário, elas se cruzam, se modificam, se recriam, na intrínseca originalidade de cada indivíduo.

Ao pensar nestas simbologias (e materialidades) como espaços em que se forjam masculinidades e feminilidades, em que se constroem estratégias de opressão, mas também de libertação, vemos que nos últimos tempos e numa direção controversa, a figura masculina vem sendo vinculada até aos moldes da "mulher fruta", com verdadeiros objetos sexuais não-femininos, sonhos de consumo ou boy magia, inclusive assistentes de palco de programa de auditório, lugar antes exclusivo para a exposição sensual e erótica feminina (a modelo que vende cerveja, carros e até aparelho de barbear!).

Sendo homem-objeto, aproxima-se com o outro lado da moeda, bem como ao ter que realizar tarefas sempre tidas como doméstica, logo, feminina. Assim, o endurecimento deste homem perante as opressões em forma de padrões e protocolos a serem seguidos, rigorosamente, podem ser vistos de outra forma, pelo menos confirmando que é possível fazer tais tarefas sem maiores prejuízos à masculinidade. Realmente sufocante, como qualquer outra submissão, muitos porém se mostram ainda mais másculos, assumindo suas particularidades supostamente efeminadas, ou ainda que tudo isso seja considerado viril, mas em total sintonia com a liberdade e a democracia de gênero, sem medo de quaisquer julgamentos - são exemplos Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos monstros quebradores de tabu, na onda "paz e amor", com direito a beijo gay na TV, ainda nos anos 80, no auge do "Fricote" de Luiz Caldas.


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A cantora austríaca Conchita Wurst (foto), vencedora do Eurovision Song Contest de 2014, lançou moda no mundo inteiro, ao criar sua bela drag queen, no estilo top model, com barba e bigode na cara! E isso foi de mais para o conservadorismo - o Ministério da Informação da Bielorrússia recebeu na época uma petição para que a BTRC, emissora de lá, tirasse a atuação de Wurst do programa. A petição alegava que sua aparição iria transformar o festival "num viveiro de sodomia".

Fora este momento triste e ignorante da humanidade, que só vem atrasar nosso processo evolutivo, a "cantora barbuda", além de vencer o tradicional concurso da TV europeia, já desfilou para Jean Paul Gaultier e estampou várias capas de revista de moda, comportamento, notícias, famosos e, claro, política - tipo: "'beijinho no ombro' pras inimiga".

Conchita Wurst - Rise Like a Phoenix (Austria) 2014 LIVE Eurovision Second Semi-Final


Mathu Andersen e Devan M. Here
Na mesma linha drag barbada, Mathu Andersen, o maquiador conhecido por seu trabalho com RuPaul, e Devan M. Here, amiga de Mathu, a drag realiza performances em casas noturnas e eventos nos EUA, ostentando sua barba e bigode em visual drag.

Do ogro, bofe... ao transexual, infinitas formas de apresentação social ou identidade são nitidamente reconhecidas o tempo todo, seja nos laços de família, no ambiente de trabalho, nas ruas, etc. Para alguns, apenas brincadeira, passa tempo, para tantos outros, fantasia erótica, estilo de vida ou condição vital irrefutável.

As padronizações, digamos, católicas, para nós brasileiros, ou heteronormativas, têm um trabalhão em manter sólidas as definições impostas há séculos. Mas estes conceitos nunca foram eternos, modificando com o passar do tempo. Homossexualidade sempre esteve presente na humanidade quanto a própria hétero ou bissexualidade (as pesquisas científicas comprovam abundantemente). E será que existe alguma ligação entre a condição sexual e o gênero, entendendo este último como sexo (ou ainda, genital)? Já sabemos da existência do "gay discreto" (másculo), do crossdresser heterossexual e outros 'gêneros' que nem ousamos definir, por serem únicos ou por não acharmos justo determinar um gênero específico, por este se apresentar entre as duas variações clássicas.

Ainda no mercado musical, outro calouro de concurso de TV, Adam Lambert, que fez uma série de shows substituindo nada menos que Freddie Mercury, outra referência gigante para as masculinidades. Adam vem se mostrando desde o início como um pop star, porém longe de seguir qualquer esteriótipo masculino ou feminino, pelo menos no comportamento - "Você não tem que ser nada!".

Freddie Mercury - Queen

Adam Lambert

Em 2004, Miriam Pillar Grossi disse em seu estudo 75 Masculinidades: Uma Revisão Teórica que, "dentro da vasta tradição dos estudos de gênero, tradição que remonta aos estudos pioneiros da antropologia européia e norte-­americana, existem hoje diferentes correntes teóricas estudando o gênero". Estes estudos vêem o gênero não apenas como um objeto de investigação, mas sobretudo como uma categoria de análise que ultrapassa mulheres e homens como objetos de análise. Porém, com a velocidade em que surgem diferentes tipos e estilos por aí, acaba não dando muito tempo para os pesquisadores ficarem tentando definir ou descrever determinado padrão, cultura, subcultura ou contracultura.

Contudo, desde os rituais mais primitivos de iniciação sexual, além de inúmeras situações de violência, há também, nestas liturgias situações que estão diretamente ligadas à sexualidade como constituidora da masculinidade. O sêmen é o fluído corporal que representa simbolicamente esta masculinidade, pois só os homens o produz. Por isto que, em alguns grupos, como para os Baruya da Nova Guiné, a masculinidade se constitui também pela ingestão de sêmen de homens mais velhos, pois eles pensam que, bebendo o esperma, os meninos vão se tornar mais homens por terem incorporado a substância masculina.

Tudo isso pode parecer absurdo para nossa realidade, mas as ideias que vão formando as então ideologias sobre cada coisa segue o mesmo sentido, mesmo que inconscientemente. Isso sem falar do icônico falo, forma e símbolo da supremacia masculina, um pênis ou espada infalível e superior, sempre disposta a adentrar e conquistar novos territórios. Uma ideia de homem bem machista para alguns e completamente inofensiva ou banal para outros.

Nesta ideia, a cultura intrínseca em cada indivíduo, vivenciada desde seu nascimento, são fatores tão importantes quanto à genética, potencializando ou fazendo desencadear fantasias, especialmente eróticas, fetiches, romance (também traumas, grilos e fobias) ou qualquer outro tipo de fé perante as situações que possa desafiar, questionar ou, simplesmente, curtir, vivenciar e até ostentar com suas masculinidades.

Transformação Maquiagem Homem Mulher

Em tempo, muitos têm sugerido que estaríamos vivendo uma crise de identidades (Goldenberg, 2000, 2004; Heilborn, 2004; Simões, 2005), na qual as velhas formas de identificação, supostamente fixas e estáveis, estariam sendo descentradas. Dentre as identidades em crise estariam e teriam
destaque as de gênero. - "Ser ou não ser" gay, "eis a questão!". E também se pode afirmar que, de forma geral, as principais mudanças que afetaram as identidades de gênero nas ultimas décadas são: as transformações na família, ou seja, a crise da forma da família nuclear burguesa (monogâmica e heterossexual); a entrada da mulher no mercado de trabalho; a separação da sexualidade da reprodução e; uma política de maior visibilidade de gays e lésbicas (Arán, 2003).

Tais mudanças estão diretamente relacionadas com transformações percebidas nas relações de poder entre homens e mulheres, mas também entre estes cujas identidades são hegemônicas frente àqueles e àquelas que um dia já foram vistos como desviantes e anormais (gays, lésbicas, transsexuais e transgêneros). De resto, o preconceito ou discriminação tem suas dimensões e abrangências, dependendo de onde, quando e quem está inserido. Por exemplo, um homem branco e pobre pode não sofrer tanto com a discriminação social que uma mulher, negra, também pobre e gay.

Masculinidades - cenas de TV (em espanhol)

Independente da aparência de cada qual, seus jeitos e trejeitos, predileções e aversões... Cada vez mais vemos toda aquela legislação do politicamente correto escorrer pelo ralo, demonstrando também com isso sua ineficiência nas relações sociais, bem como sua insustentabilidade na vivência humana.

Artistas são artistas e ponto! Eles têm carta branca para fazer o que bem entenderem ou quase isso - faz parte. E também as pessoas comuns, de outros ofícios e práticas, por que não 'ser' aquele que grita em seu íntimo? Por que seguir regras para seu próprio corpo e identidade, se estes são somente seus? Talvez um dia iremos olhar para o passado e ver o tempão que perdemos com tanta burocracia para simplesmente interagir. Por mais óbvio que seja nosso visualaparência ou comportamento, sempre haverá o que assumir (para nós mesmos e, ou para a sociedade) como específico e exclusivo da nossa identidade, principalmente no que se refere ao gênero ou às masculinidades.

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