1 de set de 2015

Filtro Gay Arco-Íris confirma: há muito mais "simpatizante" no mundo do que se imagina

A sociedade de cara nova e colorida

Quem nunca se referiu à "sociedade" como se estivesse falando de alguém carrancudo e ultra conservador? Ou que 'os homens são assim, as mulheres, assado'...  Entre as rotulações da tal sociedade ou do tal "o que o povo vai pensar", a maioria acredita que estes são, no mínimo, cheios de preconceitos. Mas, desde a última Semana Internacional do Orgulho Gay (veja a postagem de 28/06/2015), a ação do Facebook em oferecer o Rainbow Filter a seus zilhões de usuários pode trazer novidades e surpresas a esta visão, que vem se mostrando cada vez mais equivocada.

Um verdadeiro teste ou pesquisa sobre a aceitação das pessoas ao tema, o grau de envolvimento e tantas outras questões podem ser amparadas nos resultados desta ação, da maior rede social do mundo. E aquela "sociedade", de acordo com os números de adesão ao aplicativo gay, alterando a foto de perfil com um filtro de arco-íris, parece não ser tão homofóbica quanto costuma ser pintada. No Instagram, de acordo com a Revita Time, só até o final de junho, ou seja, em apenas uma semana, 35 milhões de pessoas aderiram à campanha. A ação ultrapassou de imediato mais de 116 milhões de fotos, comentários e curtidas. Os números são recordes entre as redes sociais e superou até as postagens sobre a Copa do Mundo 2014 - as hashtags mais usadas no período foram: #lovewins, #pride, #equality, #loveislove, #love, #lgbt, #gay, #marriageequality, #gaypride e #pride2015. Além disso, os emoticons de coração e arco-íris foram bastante utilizados nas mensagens e comentários.

No Facebook, a maior rede do planeta virtual, com 1,5 bilhão de usuários, teve mais de 26 milhões utilizando a ferramenta filtro arco-íris na foto de perfil e mais de 500 milhões de curtidas, só nas primeiras semanas. Há dois meses de Rainbow Filter Celebrate Pride, muita gente mantém a 'bandeira gay na cara', entre gays e simpatizantes, incluindo páginas de estabelecimentos que usam o filtro como indicador para o público gay e como demonstração de "sem preconceitos" ou em apoio ao orgulho gay, à diversidade de gênero e aos direitos civis igualitários - um só símbolo com muitos significados e infinitas reações.



Esta ação pró-LGBT foi motivada, inicialmente, pela aprovação nacional do casamento igualitário nos EUA, coincidindo com a semana e o Dia Internacional do Orgulho Gay, comemorado em 28 de junho. No Brasil, o assunto se mantém em voga por conta, principalmente, de um constante debate, porém, jamais visto na história, com as discussões nas redes sociais entre liberais (e simpatizantes) e conservadores (e antipatizantes), sempre na timeline da galera, especialmente entre os mais de 700 mil seguidores do deputado federal Jean Wyllys, e da página Quebrando o Tabu, que também aborda questões polêmicas, como legalização da maconha, com mais de 1,5 milhão de seguidores, entre outros acontecimentos e repercussões sobre o tema "direitos civis igualitários" - onde se lê 'direitos humanos'.


A Experiência

Ou, mais precisamente, o experimento facebookeano. Será que o 'banho de arco-íris' é meramente um estudo do Face? Para The Athantic, as redes sociais aprendem muito mais sobre seus usuários do que eles podem imaginar. O acontecimento em massa do filtro colorido não foi a primeira ação do tipo. Desde março de 2013, quando 3 milhões de pessoas mudaram suas imagens de perfil para um sinal de igual vermelho (foto), o logotipo da Human Rights Campaign, como uma maneira de apoiar o casamento igualitário, ou a igualdade de direitos para quaisquer que sejam os arranjos matrimoniais ou familiares.

Com o filtro arco-íris, de forma bem simples de usar, logo, quase irresistível, o Facebook fez mais de 1 milhão de pessoas mudar a foto de perfil para o sugerido pela rede, ainda nas primeiras horas de campanha. "Este é provavelmente um experimento Facebook!", brincou o especialista Cesar Hidalgo, no próprio Face, na véspera do Dia Internacional do Orgulho LGBT. "Este é um estudo do Facebook do tipo 'Eu quero participar também!'", comentou Stacy Blasiola, um Ph.D. em comunicações da Universidade de Illinois (EUA), ao também mudar seu perfil na rede para as cores vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e roxo.

Já o pessoal do próprio recurso Celebrate Pride afirma que "não é uma experiência ou ensaio". Mas não deixa de ser uma facilidade da comunicação atual, bem como os reality shows, com julgamentos de comportamento, opinião, votação entre os tipos mais populares, mais carismáticos, polêmicos ou o que causa repulsa, indignação, revolta... Enfim, são experiências talvez planejadas, premeditadas, elaboradas com objetivos próprios ou até encomendadas, como acontece em qualquer pesquisa de opinião.

As ações coletivas ou, simplesmente, coletivos, parece ser mesmo a forma de se trabalhar atualmente. Na ação do sinal de igual em vermelho, especialistas analisaram o que levou as pessoas a mudarem a foto de perfil para aquele então símbolo novo, cujo resultado seria o quantitativo de apoiadores das causas LGBT.

As análises podem ser infinitas e muito úteis para a comunicação social, na política e no mercado em geral, identificando o gosto e predisposições de cada um, podendo ser essenciais para as organizações, associações, grupos, tribos ou simples cidadãos, da atividade coletiva dos movimentos e participação popular na política, entre questões das mais inocentes até as mais absurdas, incluindo o fomento do "orgulho gay", através da identificação (identidade) entre as pessoas afins.

A primeira experiência mesmo foi quando os usuários do Twitter, em 2009, usaram o perfil verde, compartilhado ao Facebook, e alteraram o local para Teerã, em apoio aos iranianos (Global Voices Irã). Na época, os especialistas tentavam não dar tanta bola para o que seria uma "revolução Twitter", dizendo que se tratava mais de fantasias ocidentais para novas mídias do que a realidade no Irã. Diziam que era um ativismo inofensivo, pouco produtivo, e hoje vemos que os resultados de ações como esta não são nada irrelevantes.

Entre outras críticas, Evgeny Morozov, um pesquisador e escritor bielorrusso, estudioso das implicações políticas e sociais do progresso tecnológico e digital, apontou duas questões importantes em um debate mais amplo sobre o valor da ação coletiva online. Primeiro, ele argumentou que a solidariedade em mídia social tem um efeito ainda desconhecido para a mudança política, podendo ser até uma manobra ou jogada para se desviar dos assuntos indesejáveis. Depois, o cientista minimizou o custo e o risco de uma participação como esta, na ideia de ser muito mais cômodo e seguro dar um OK na internet do que ir a uma passeata, por exemplo, ou ter que proferir mais tempo e, ou dinheiro para atuar.


Ao contrário dos ocidentais que mostraram solidariedade para os iranianos no Twitter, a igualdade de gênero nos EUA, comemorada pelo Raimbow Filter, envolveu mudanças significativas nas relações sociais, ao lado, é claro, das mudanças políticas. Uma simples alteração na foto de perfil, porém, dizendo muito quanto ao posicionamento do usuário sobre o tema homossexualidade - e isso traz riscos e custos imediatos, de uma briga ou discussão com ideias divergentes até o risco de vida, especialmente em uma época que ainda se mata pelo fútil e torpe motivo do outro ser gay, ainda que suposta e aparentemente (gênero).

Assim, o slacktivism em mudar a imagem de perfil pode ser ainda mais expressivo, se pensarmos que muitos não o fizeram por receios relacionados à exposição da condição sexual e os consequentes riscos sociais. Por outro lado, assim como o principal objetivo das paradas gays, estas saídas de armário, levantadas de bandeira (arco-íris) ou pinta, contribuem para uma maior aceitação e inclusão de pessoas fora do padrão heterossexual, ao se deparar com tanta gente parecida e até que pensa igual. Alguns estudiosos podem até falar que é uma maneira preguiçosa de se engajar no ativismo LGBT, mas, para muitos, pode ser um grande ato de coragem e bravura a simples colorida na foto de perfil, o que seria a própria saída do armário.

O fundador do Facebook Mark Zuckerberg
Veja alguns trechos da análise de Rafael Evangelista, publicado em 07/07/2015, na Carta Capital, sobre o embate entre o ativismo virtual e os supostos experimentos das redes sociais:

A dinâmica da polêmica do Caso Arco-Íris foi particularmente interessante. Primeiro surgiram pressões e acusações em cima dos usuários que não aderiram: não usar a imagem seria como não apoiar a luta de uma maneira geral e perder a oportunidade de fazer um enfrentamento político contra aqueles que pregam o ódio. Vieram as justificativas de que aquela seria uma lei dos EUA, as afirmações de que o Brasil já havia aprovado lei semelhante anos atrás e, mais tarde, a recusa em se tornar objeto de um experimento facebookiano.

A tréplica, em geral, foi no sentido de apontar que o tempo todo estamos sendo alvo de experimentações, testes e captura de dados quando estamos nas redes sociais. Isso, inclusive, está no contrato de adesão que clicamos ao nos cadastrar nelas. A temperatura das acusações foi, claro, aumentando ao longo do debate. Os dois lados têm suas razões e equívocos nas argumentações. De fato, as redes sociais se tornaram grandes plataformas de expressão de opinião na atualidade, sendo o tempo todo “sentidas” por políticos ao fazerem cálculos para satisfazerem suas bases eleitorais. 

Fala também dos perigos do ativismo político que se dedica cegamente à rede e mostra o quão vulneráveis à manipulação da informação nos tornamos. Afinal, experimentos do Facebook são uma realidade bem séria e distante da “conspiranoia” atribuída aqueles que lembram que os usuários são cobaias (vale ver estudos como o que investiga a autocensura no Facebook e utiliza dados que os usuários nunca chegaram a publicar).

Embora não se possa afimar que Celebrate Pride tenha sido somente para uma experimentação, o Facebook não negou até o momento o interesse e o uso das informações produzidas durante o episódio. Uma das questões em alta, que interessa o Facebook, envolve avaliar como se dá o contágio de opiniões na rede. Vimos muito claramente que aqueles que não aderiram à campanha foram pressionados por seus “amigos” a emitirem algum sinal sobre o assunto. Mesmo quem não utilizou a ferramenta do Facebook foi levado a publicar algum tipo de justificativa ou um sinal de adesão à causa.

A dinâmica do contágio do Caso Arco-Íris vai além dos virais de gatinhos a que estamos acostumados. É um ativismo fácil para muitos, mas pode envolver risco para alguns. Quantos amigos aderindo à causa são necessários para que alguém, pertencente a uma comunidade religiosa em desacordo com a questão, sinta-se seguro para expressar sua opinião? Quantas pessoas, após a explosão de apoio ao arco-íris, sentiram-se seguras para alterarem sua orientação sexual no perfil do Facebook? A importância desse tipo de pesquisa vai muito além dos óbvios interesses comerciais das empresas de tecnologia da informação. Envolve conhecimentos sobre dinâmica social e política, algo buscado pelas disciplinas científicas mas também de muito interesse das organizações militares. Um artigo, publicado em 2014 no The Guardian, fala sobre a Iniciativa de Pesquisa Minerva, um programa multimilionário do Departamento de Defesa dos EUA voltado às Ciências Sociais. Um dos projetos financiados dedica-se a entender a “dinâmica de mobilização e contágio de movimentos sociais”, tendo como estudo de caso, entre outros, os eventos do Egito e da Turquia.

Mesmo que pensemos somente em aplicações econômicas, a força daqueles que possuem o banco de dados da troca de informações de milhões de pessoas é totalmente desproporcional se comparada aos pesquisadores científicos que trabalham em instituições de pesquisa. De posse dessas informações é possível atuar informacionalmente na promoção de produtos e desejos, ou mesmo na prospecção de movimentos de mercado, obtendo lucros que vão além da mera venda de espaço publicitário a terceiros. E pior, no caso do Facebook que já se mostrou capaz de controlar a dinâmica das relações entre os usuários.

Tuitaços, troca de avatares, fitinhas e cores indicando adesão à causa x ou y já se provaram boas ferramentas de pressão social e política, úteis. Só é preciso ter claro que elas também estão disponíveis ao inimigo que, hoje, nas redes sociais privadas, escreve as regras do jogo e é o dono do tabuleiro.

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Gay ou heterossexual, cada vez mais as pessoas estão compreendendo que a condição sexual ou de gênero são meros detalhes ou características pessoais, independente de personalidade ou caráter. Isso muito se deve, conforme já dito, às primeiras "bota a cara no sol", das paradas de Orgulho Gay ao filtro com o símbolo  nas cores do arco-íris - tudo em direção à constatação que a homossexualidade não é e nunca foi um caso isolado, anormal, marginal ou, pelo menos, ostentar as controvérsias que existem por trás do rótulo "minoria".

De qualquer forma, seja através de experimentações de mercado, de pesquisas científicas, de simples brincadeira inocente ou apoio às causas gays, as discussões sugeridas pelo Raimbow Filter Celebrate Pride ainda promovem debates acalorados, abrangendo desde o ato de "se assumir" até posicionamentos sócio-políticos, frente às normas do passado, estando estas cada vez mais enfraquecidas, conforme a adesão e o envolvimento das pessoas nestas ações, refletindo, por sua vez, a opinião daquela "sociedade".

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