21 de jun de 2015

Fotografia: Mario Gerth

Homem Tribal

Viajando pelo mundo inteiro numa espécie de radnomade, o alemão Mario Gerth (1976) revela, através de suas fotografias, a beleza exuberante dos povos tribais do continente africano, suas formas arcaicas de vida, frente ao mundo moderno em que vivemos. Uma intrigante viagem às nossas origens, trazendo para os dias de hoje rituais milenares (e ainda vivos), onde a figura humana é resultado direto da natureza, em sua história e culturas.

Fotógrafo documentarista e fotojornalista, Gerth já viajou por mais de 80 países, nos cinco continentes, em busca de sua paixão: retratar a beleza na natureza das coisas. Ele tem sido um testemunho de guerras civis, de ditaduras, da pobreza extrema e violência do mundo, porém, mais frequentemente, se sente como um hóspede de um planeta repleto de graça e magnitude. "Eu prefiro muito mais visitar lugares e pessoas, cuja força e grandeza cultural adotaram características únicas (culturais e sociais)" - diz o fotógrafo em seu site.

Foram meses viajando através das áreas mais remotas da África, levando o fotógrafo a se deparar com a intrigante diferença entre o 1º Mundo em que nascera, "civilizado", e o que consideramos como formas primitivas de vida, porém, com uma incomparável beleza, onde a natureza atribui toda sua dignidade estampada na cara, no próprio rosto de seus povos.

Para retratar esta natureza (ou naturalidade) praticamente intocável e, por sua vez, as pessoas e suas vidas, Mario Gerth viajou quilômetros a pé, de barco e de jipe, em todas as quatro direções, às vezes sozinho, outras vezes na companhia de amigos, em busca de tudo que envolve o continente africano. Sua fotografia torna-se uma homenagem a esta parte do mundo e ao ápice da sua paixão, descrevendo um mundo de colorido exuberante ou, mesmo em preto e branco, sempre repleto de pormenores significativos, seja através das figuras de homens negros, de idosos a crianças, bem como a harmonia divina existente em paisagens como os gigantescos bancos de areia e suas inumeráveis dunas. São retratos íntimos, paradisíacos e vívidos de um grande continente, que respira uma peculiar diversidade, naturalmente, tão escassa no uniforme e ordenado ocidente - fotos que documentam, informam, questionam e encantam.

Exibidas em exposições internacionais e publicadas em várias revistas (a revista Die Zeit o considerou com um dos "transformadores do mundo"), suas fotografias revelam incontáveis ​​gerações e o espírito da natureza que dá origem a uma beleza estranha ao padrão moderno, porém, mostrando nestas imagens o orgulho arcaico através de cada retrato de nativos, certamente identificáveis por qualquer ser humano.

Galeria I:
Mario Gerth (Retratos)










As falas do corpo

Em todo o planeta, há milhares de sociedades primitivas, onde encontramos variadas formas de lidar com a natureza e entre as pessoas, indo desde a aceitação e o respeito, até a completa rejeição e eliminação. Com relação ao corpo e ao sexo, por exemplo, alguns rituais parecem verdadeiros absurdos aos olhos dos 'civilizados', nos intrigando com as diferentes leituras ou vivências na relação entre homem, natureza e crença.

Na extinta tribo dos prussianos Sambians, para se tornar homem, os garotos tinham que parar de conviver com as meninas e mulheres, ao completarem sete anos de idade. Eles ficavam dez anos afastados, apenas se purificando e se livrando de qualquer vestígio feminino em suas vidas.

Pintura corporal do sul da Etiópia
Os rituais incluem o uso de ornamentos na pele, a ingestão em larga escala de cana de açúcar, com a finalidade de provocar vômito e fazer sangrar o nariz. Além disso, eles tinham que ingerir o sêmen dos mais velhos, acreditando, com isso, garantir força e crescimento. Ao retornarem à tribo, logo se casavam, mantendo o ritual de sangrarem o nariz, sempre que suas esposas vinham a menstruar.

Todo mês de julho, nas Cataratas de Saut d`Eau, no Haiti, há um ritual em homenagem à deusa do amor, onde alguns membros do vudu resolvem dançar freneticamente pelados e ensanguentados ao redor dos restos de animais que acabaram de ser sacrificados - tudo em nome do amor.

Na época de Cleópatra, acreditava-se, no Egito, que os afluentes do Rio Nilo estavam diretamente relacionados às ejaculações do Deus da Criação. Esse conceito místico foi o responsável por fazer com que os faraós dessem início a um ritual de masturbação em público, com a finalidade de garantir a abundância das águas do rio. O estímulo foi tão grande que não demorou para que o ritual fosse transformado em um grande evento.

Já em uma tribo aborígene da Austrália, é praticado um ritual bastante doloroso para garantir a masculinidade de seus integrantes. O homem é circuncidado e, em seguida, deve comer o próprio prepúcio retirado. Como se não bastasse tudo isso, o homem ainda tem seu pênis cortado longitudinalmente por dentro. O sangue resultante de toda essa operação é derramado sobre o fogo, para que o homem em questão seja purificado.

Sex Rituals Africa

Outros rituais, já bem mais conhecidos por todos, consiste em esculpir com lama os próprios cabelos, além da pintura corporal ou das tatuagens com queimaduras ou cortes, com padrões gráficos esteticamente sofisticados e cheios de significados relacionados à posição social, ao poder, seja para a guerra, para a colheita ou caça, ou a virtudes como virilidade ou fertilidade, para a sobrevivência da espécie através do sexo. Muitas destas ornamentações são verdadeiras obras de arte, com decorações que usam até diamantes, entre outras pedras preciosas, resultado de milhares de anos de tradição.

Veja mais:
Fotos de pinturas corporais africanas (masculino)








O passado vivo de Gerth

Embora antigos e supostamente imutáveis, os costumes das tribos africanas revelam muito mais do que a estética praticada por eles, mas também toda uma cultura relacionada a suas próprias histórias, necessidades físicas e intelectuais, geralmente interligando as forças místicas à natureza, inclusive as forças humanas. Mario Gerth diz sobre os penteados das tribos africanas: "os penteados africanos estão em constante mudança, ainda profundamente enraizados em um passado comum, decorrente de tradições tribais. Cada tribo tem seu próprio estilo, e, em seguida, dentro de uma tribo podemos encontrar ainda mais estilos - para homens, mulheres, filhos, viúvos, etc.".

Viajando para o sul de Angola, Mario visitou as tribos Mumuhuila e Mucawana, e fotografou uma coleção inteira só de penteados exóticos. "Usando elementos tais como manteiga, óleo, esterco de vaca e ervas, os tribais criam um estilo fascinante, diferente de quase tudo. Pérolas, conchas e pedras coloridas ajudam na criação de suas obras-primas" - diz Gerth.

Mario Gerth Photography - Making of

Trazer toda a exuberância de povos que ainda vivem de forma muito antiga ou tradicional, faz das fotografias de Mario Gerth um importante documento antropológico (e atualizado), onde os diversos tipos de cultura refletem, inclusive, tudo aquilo que nos inquieta no mundo moderno e contemporâneo, na recorrente tentativa em nos enquadrar nas atuais normas sociais.

Uma leitura da intimidade da raça humana em sua mais alta nudez, plena, sem maiores artifícios e, justamente por isso, fascinante. Um contraponto perfeito com a nossa necessidade de identificação com o ambiente ao redor de nós (tribos), através do comportamento, especialmente sobre o que fazemos com o próprio corpo, roupas e acessórios, indicando um posicionamento ou realidade de vida bem específicos e, ao mesmo tempo, universais, de fácil identificação por todos.


Galeria II:
Mario Gerth



















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