4 de jul de 2015

Expo-Cu e o segregado ânus nas artes

Arte de cu é rôla!

Sabemos que, de início, arte e moralismo são incompatíveis, ainda que costumamos limitar certas expressões artísticas como mera pornografia, entendendo esta última como algo menor ou vulgar de mais para se considerar uma Belas Artes, sendo uma desinformação artística ou um palavrão por si só.

Como no politicamente correto, vilão dos humoristas e da tal liberdade de expressão, para se fazer arte não há limites, até por conta da sua genérica definição, onde o fazer ou criar algo para os outros não traz, necessariamente, nenhuma funcionalidade além da própria manifestação de ordem estética ou comunicativa. Assim, ainda mais marginalizado do que a Arte Erótica, nas artes visuais, alguns temas são vistos com estranheza e até repulsa por boa parte das pessoas. Um deles é a simples nudez, tudo aquilo que não consideramos belo ou, mais especificamente, partes do corpo como os genitais, vísceras e aquilo que todo mundo tem, mas faz de conta que não existe: o ânus - talvez pela sua fisiologia, antes mesmo de qualquer outra função ali atribuída - uma segregação cultural das coisas que conceituamos como tabu.

Ou por estar situado em uma área onde nem o dono consegue ver direito, sem o auxílio de um espelho ou câmera, por exemplo. Assim, o que não é visto ou exposto torna-se desconhecido e, talvez por isso, tão tenebroso. Mas, para desmistificar um pouco esta ideia de "coisa feia" ou obscura, veremos algumas experiências artísticas onde o protagonista é o próprio ânus ou, sem nenhum pudor ou papas na língua, cu, rabo, buraco, rodela, anel, brioco, caneco, redondo, reto, toba, tuim, fiofó, furico, rego, loló, rosca, ruela, jiló, botão...  Ou, simplesmente, fazendo o sinal universal de "Ok", no mais amplo e íntimo dos sentidos.

Por sua vez, o conceito de belo é relacionado a determinadas características visíveis nas coisas, sendo, historicamente, o produto maior da estética clássica. Na cultura greco-romana antiga, esta concepção foi amplamente desenvolvida por filósofos, com repercussão na própria cultura, na arquitetura, nas artes, na moda de vestuário e até no comportamento, com regras associadas à ordem, à simetria e à proporção.

Contudo, podemos gostar de algo por ser bonito ou feio, por ser doce ou amargo, atraente, sedutor, repulsivo ou assustador, mas não seria o gosto que definiria a ideia do que é belo. O mesmo acontece com o que percebemos ou identificamos nas pessoas, podendo agradar ou não de alguém, de acordo com as paixões subjetivamente encorporadas na nossa vivência. Ao longo da história, muitas coisas e ações que antes eram consideradas inadequadas, ganham hoje novos sentidos, interpretações e estima.

Um dos conjuntos de fotografias pornográficas de Andy Warhol, datadas entre o final dos anos
70 e início de 80, leiloadas pela galeria Christie's (NY), em junho de 2014.
Além da rotulada Arte Erótica, temáticas relacionadas ao sexo explícito, seja este entendido como prática ou genitália ostentada, geralmente são menos prestigiadas ou respeitadas como experiência artística digna, com exceção dos artistas já renomados, como Jeff Koons, Tom of Finland, Andy Warhol e Robert Mapplethorpe, entre outros que primeiro tiveram que comprovar seus valores artísticos em temas mais convencionais, ou eram tidos como de vanguarda ou de arte marginal, para, bem depois (alguns destes, só depois de morto), terem seus talentos realmente reconhecidos como Fine Art, "arte maior" ou cult. Uma espécie de elitismo no universo e mercado artísticos, assim como em todos os setores da sociedade, que só visam as aparências, o imediatismo, o superficial ou o entendimento raso do "politicamente correto" que, consequentemente, é incoerente com a verdade contida no verbo ar-te.

Nas artes visuais, não é tão raro vermos imagens de pênis, vagina, seios, púbis, axilas, secreções, bunda... Seja com o intuito de chocar o expectador, protestar, provocar ou mesmo no sentido escatológico. Mas quando o assunto é o próprio ânus, ou o que sai dele, a repulsa é quase automática, criando para o observador um clima de indignação ou até de desrespeito - um insulto!

O artista italiano Piero Manzoni se tornou famoso por enlatar seu próprio cocô, em 90 latinhas etiquetadas como Merda d'Artista, em 1963, entrando para a história das artes por vender, literalmente, sua 'obra' (fezes), em forma de objeto de arte. "Todos os artistas deveriam vender suas impressões digitais ou a sua própria merda em latinhas" - escreveu Manzoni, numa carta manifesto em 1961. "Se o colecionador quiser algo íntimo e pessoal, que seja mesmo do artista, ele pode comprar a sua merda", já criticando, na época, a onda dos marchand, colecionadores e galeristas na comercialização das histórias e objetos pessoais dos artistas, mesmo quando nada daquilo era relevante para suas obras. E "aquela obra de merda é usada até hoje para condenar a arte contemporânea", disse o organizador da mostra no MAM (SP), em abril deste ano, Paulo Venâncio Filho à Folha. Esta célebre provocação talvez só perderia para o urinol de Marcel Duchamp, exposto como escultura (ready made) em 1917, num concurso de arte. Na época, embora ter sido um divisor de águas nas artes, sua obra foi rejeitada pelo júri, pois diziam que ela não representava labor artístico.

Robert Mapplethorpe - Raymond, 1985 (fotografia)

Piero Manzoni - Merda d'Artista, 1963 (objeto)

Marcel Duchamp - Fountain ("Fonte"), 1917 (ready made - urinol)

Bentteine - "Cu" (desenho digital)

Reinaldo Rezende - O Banho IV, 1999 (desenho)

Fernando Carpaneda - Underground (escultura / boneco)


A lenda Expo-Cu

A suposta exposição de arte Expo-Cu, até que me provem o contrário, é uma lenda que se tornou viral (e arte virtual), desde 2008 e, vira-e-mexe, aparece em nossa timeline. Diversos sites e blogs, desavisadamente, passaram a divulgar a polêmica causada por uma certa exposição artística, onde as obras eram ampliações de fotografias de ânus de gente famosa. Consequentemente, além dos leitores e seguidores, os próprios redatores, colunistas ou blogueiros não deixam de expressar suas indignações, preconceitos e espanto nos inúmeros comentários e postagens, desta inusitada mostra que teria ocorrido na França.

A divulgação inicial, que não se sabe de onde nem de quando, e a repercussão da estranha exibição são quase as mesmas: "Primeira Expo-Cu - A exposição que deu o que falar em Paris". Contudo, ao acessar estas publicações, o que se vê são apenas fotos de diversos tipos de ânus anônimos e em close, em montagens (fake) que fazem acreditar que estas estavam dispostas em uma galeria de arte, mas sem nenhuma informação concreta sobre o nome do fotógrafo ou dos donos dos buracos retratados, por exemplo.

Nas fotos, vemos gente montando os quadros, funcionários da galeria limpando o chão e as obras, e até visitante observando a exposição, na clássica postura de sérios apreciadores de arte. Junto com a viralização em diferentes formas e títulos: "Exposição Buraco do Cu", "1ª Feira Cu", "Exposição polêmica movimenta galeria de arte na França e divide opinião do público", "Fundação de Serralves inaugura Expo-Cu em Paris", e tantas outras chamadas, acaba levando a galera clicar e conferir o que se trata - afinal, é uma proposta, no mínimo, curiosa. Até me lembrei de uma Bienal de Arte de São Paulo que, se não me engano, havia retratos do tipo, mas também não consegui encontrar nada específico para ilustrar - se alguém tiver alguma informação sobre a veracidade desta exposição ou de outras semelhantes, por favor, avisa!

A tal Expo CuFeira Cu ou Mostra Cu não passa de uma mentira virtual, pegadinha e, pelo visto, das grandes, enganando muita gente e se tornando um viral até hoje, nas redes sociais. Mas esta especulação nos leva a pelo menos imaginar a hipótese de uma real exposição do tipo, e o que aconteceria na opinião popular, se de fato isso fosse verdade, haja vista que só a fofoca causou e vem causando tanta polêmica.

E por ter tido tanto efeito, tanta repercussão, mesmo não sendo real, podemos também chamar esta provocação de arte, digamos, especulativa, já que a própria presunção, antes mesmo de qualquer realização ou realidade, abriu diversos debates, fazendo o público em geral reagir como se estivesse diante de algo concreto - uma verdadeira obra de arte virtual da enganação, web art 'conceitual' e até 'performance' de boataria. Veja as fotos:







Loving Ass

Em março deste ano (2015), duas performances, dos atores Thiago Camacho e Matheus Fernando Felix foram apresentadas para artistas e convidados em São Paulo, como parte dos estudos de um espetáculo performático que estreava por lá. Frieza e Tomar no Cu são os títulos dos trabalhos dos atores e namorados, que apresentaram, em forma de confronto moral, suas discussões sociais.

Em Frieza, cubos de gelo são inseridos no ânus, como forma de questionar as relações interpessoais. “O quanto você é frio com as questões alheias?”, questionava o espetáculo, enquanto os dois se comunicavam através dos cubos retirados de uma tigela de alumínio. Já em Tomar no Cu, uma garrafa de vinho fora introduzida no reto do performer, com a interação entre o casal remetendo a relação do cidadão com o governo e com o próprio corpo.

Tomar no cu é uma performance de confronto moral, resistência e discussão sobre o ânus como órgão disposto aos poderes públicos, que decidem socialmente e culturalmente como ser utilizado: orifício de expulsão de excrementos”, explicou Camacho, referindo-se aos esforços retrógrados e inconstitucionais (também anti-científicos) dos atuais conservadores, inclusive na política, em querer criminalizar a homossexualidade e voltar a tratá-la como patologia. Os jatos de vinho eram lançados um contra o outro, provindos dos seus respectivos cus ou, literalmente, tomando (vinho) no cu.

A relação entre os dois artistas começou quanto Thiago era professor de Matheus no ensino médio. Juntos, eles fundaram a dupla performática Freeedd, com ações dentro e fora da escola. Os jovens marcam presença em protestos e manifestações políticas na capital paulista e possuem ainda outro projeto, onde fotografam diversos tipos de beijo pelo mundo. Ao tratar da diversidade, as reações destas provocações ainda costumam julgar moralmente aquilo que muitos leem como agressão à "moral e bons costumes", cumprindo estas performances o papel artístico de inquietar o público. Veja o ensaio das performances Frieza e Tomar no Cu:

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Ensaios das performances Frieza Tomar no Cu (youtube.com/watch?v=9LysRZwdt2k)



Cu de Ferro

Por uma bagatela de 2 a 7 mil reais o artista plástico Magnus Irwin cria cu de bronze ou de chocolate por encomenda. Primeiramente, o inglês tira o molde do ânus do cliente para criar uma peça em bronze ou um, digamos, bombom de cu - à escolha do freguês.

A técnica para este tipo de escultura consiste em lubrificar a região anal com vaselina e, depois, é aplicado uma resina de molde, a mesma utilizada pelos dentistas para moldar os dentes ou para a fabricação de próteses. É um processo rápido e sem nenhuma dor. Depois da criação deste contra-molde ou do molde em negativo, ele usa gesso para criar o verdadeiro molde e o recipiente que receberá a peça em metal ou chocolate. A ideia inusitada, segundo Irwin, que já fez centenas de réplicas anais de homens e mulheres, de idades variadas, geralmente serve para presentear a pessoa amada ou, simplesmente, para guardar como lembrança pelo próprio dono do cu copiado.

As réplicas penianas ou de vaginas já são comuns em qualquer sex shop, feitas com a mesma técnica, porém, em borracha, mas os artistas britânicos Michael Ritzema e Magnus Irvin resolveram inovar, reproduzindo aquela parte do corpo que geralmente nos constrange: o ânus. Eles fazem chocolates em formato anal há 15 anos, utilizando como moldes ânus reais e passaram agora a  produzir um objeto de luxo (de humor ou de luxúria)  para quem quer imortalizar esta icônica parte do corpo. Em entrevista ao canal Riot TV, eles dizem que as pessoas ficam um pouco preocupadas ao chegarem no espaço, mas que logo encaram o trabalho como algo, no mínimo, divertido. Veja mais fotos e o vídeo do processo:







Alternative Model Has Her Anus Cast In Bronze (Starring Rayna Terror)



Cutucando o cu alheio

Outra performance onde o ânus ganhou papel de destaque foi realizada no ano passado (2014), onde Caio, Mavi Veloso e Yang Dallas levaram a sério o termo que escolheram para intitular a encenação artística: Macaquinho. Na ação, eles exploram os cus, uns dos outros, com toques, dedadas, entre outras experiências táteis no orifício anal.

O projeto nasceu em 2011 como uma intervenção no Museu do Piauí, sendo a performance Macaquinho apresentada na instalação Modelo Vivo, durante a 10ª edição da mostra de performance VERBO, em 2014, em São Paulo. No mesmo ano, no 22º Festival MIX Brasil de Cultura da Diversidade, lá estavam eles entre outras peças de teatro, também com teor sexual, no CCSP, pelo projeto Dramática em Cena. Estes eventos, digamos, alternativos, têm como objetivo ampliar os horizontes do público, levando à descoberta de novos conceitos de arte.

A performance Macaquinho levou ao palco 9 atores ao todo, que exploravam seus ânus entre si. Completamente pelados, os personagens se dispunham em três orientações: "aprender que existe cu", "aprender a ir de encontro ao cu" e "aprender a partir do cu e com o cu". Veja algumas fotos e vídeos da performance artística Macaquinho:







"Macaquinho"


"Macaquinho"




Cu virgem?!

Já o estudante britânico Clayton Pettet, aos 19 anos de idade, transformou em performance artística a própria perda da virgindade anal, em 2013. A proposta, além da subjetividade na expressão "perder a virgindade", era que esta perda de cabaço seria na frente de, pelo menos, 100 pessoas, em uma galeria de arte em Londres, durante uma performance, marcada para janeiro do ano seguinte, 2014. O ato fazia parte do projeto Art School Stole My Virginity ("A Escola de Artes Roubou Minha Virgindade"). "A chave da arte performática é que ela só deve ser performada uma vez. E perder a virgindade é uma das coisas que acontece uma única vez na vida de uma pessoa. Eu segurei minha virgindade por 19 anos e não vou perdê-la levianamente. É como se eu estivesse perdendo na verdade o estigma que há em torno disso", afirmou Pettet ao jornal britânico Daily Mail, à época. Toda a sessão foi pensada e estudada há três anos pelo estudante de arte e, após a performance e da perda da virgindade, havia até a ideia de se abrir uma mesa redonda, onde as pessoas que estivessem no local pudessem debater sobre a ação artística. Apesar do planejamento e da divulgação na imprensa, o performer ainda não havia contado aos seus pais que perderia a virgindade anal dentro de um projeto tão público.

Contudo, às vésperas do acontecimento tão aguardado pelos curiosos de plantão, antes mesmos do público interessado em arte ou teatro de vanguarda, Clayton Pettet acabou decepcionando. Embora tenha recebido mais de 10 mil inscrições de pessoas que gostariam de assistir à performance, o estudante selecionou 150 destes e os reuniu em Londres para o tão esperado evento, que chegou a acontecer num antigo prédio da BBC na capital inglesa, mas sem rolar sexo (nem oral, nem anal).

“Eles não queriam ver arte, eles queriam me ver fazendo sexo”, disse o então artista à revista Dazed and Confused. “Se estavam esperando outra coisa, isso diz mais sobre as pessoas do que sobre mim”, garantiu. O exercício contou com a participação dos visitantes e, escondido em uma pequena cabine, Clayton se sentava entre cachos de banana. Conforme os visitantes entravam, ele pedia para cada um colocar uma banana em sua boca e, depois, ordenava que saíssem. “Fiquei decepcionado”, disse um dos participantes do evento no Twitter. “Não foi o que eu esperava”, disse outro. Para o artista, a ideia era causar nas pessoas a mesma ansiedade e eventualmente o mesmo pânico que a perda da virgindade teve nele. E em outra entrevista, o estudante garantiu: “Não quero fazer sexo nunca – minha arte é minha sexualidade”. Veja mais fotos e vídeos:



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Art School Stole My Virginity

Art School Stole My Virginity



O olho do cu

Se o assunto é arte e cu, não poderia ficar de fora o álbum do tropicalista e gênio Tom Zé, que tem um ânus estampado na capa. O fotógrafo do disco Todos Os Olhos (1973), um clássico de um dos músicos mais originais e experimentais da MPB, confirma o que todo mundo já sabia ou suspeitava na época: era mesmo um fiofó na capa! Chico Andrade confessou este pormenor em seu blog, quase 40 anos depois daquela sessão de fotos. Segundo ele, a modelo foi uma prostituta, que sempre soube que as fotos seriam para uma capa de disco: “A moçoila que posou fazia ponto na rua e cobrou um cachê artístico, inclusive, assinando recibo e tudo mais”, disse o fotógrafo.

Até então, muitos acreditavam que a imagem era uma boca e não um ânus, até mesmo porque o momento era de plena ditadura no Brasil, que talvez não permitiria tal pornografia nem nos filmes da pornochanchada. A ideia da capa era do poeta concretista Décio Pignatari, sócio da agência de publicidade E=mc2 e amigo próximo de Tom Zé, que decidiu ironizar (burlar ou afrontar) com a censura, tão severa na época (mas, as vezes, débil), fotografando um ânus feminino com uma bola de gude no meio. A imagem original, publicada na página virtual do fotógrafo, mostra uma das fotos, ainda sem tratamento, com um ângulo bem explícito da modelo.

Reinaldo Moraes, então com 22 anos, era sócio de Décio na agência, onde também trabalhava como assistente de estúdio, e coube a ele encontrar a modelo e realizar as fotos. Reinaldo entrou em contato com uma paquera eventual que era fã do tropicalismo, e ela topou servir de modelo. Tom Zé, ao saber que haviam conseguido uma modelo, ficou aflito com a situação, por sequer cogitar a ideia de pedir algo do tipo a uma moça. Reinaldo e a modelo foram, num Fusca, a um motel de caminhoneiros, sob a placa de "Retiro Rodoviário", nas margens da Rodovia Raposo Tavares, e com uma câmera de 50 mm e duas lâmpadas de 100W, tentaram realizar as fotos durante vários minutos e em diversas posições, dada a dificuldade em manter a bolinha parada em seu buraco. Após várias tentativas, ela ficou constrangida, mas Reinaldo insistiu contra a vontade dela até obter as fotos. Por fim, foram embora sem se falar de vergonha (Blog do Chico Andrade).

Foto original da capa Todos os Olhos (Tom Zé, 1973) de Chico Andrade



A "descolonização" do cu

Mais uma performance, desta vez, o artista plástico e cientista social Pedro Costa causou bastante polêmica no 13º Salão de Artes Visuais de Natal (2013), retirando um terço do próprio cu. Membro do grupo Solange Tô Aberta!, Costa tirou a roupa em frente ao público e, pelado e de quatro no chão, tirou um terço… do ânus. A performance foi filmada e está em exibição, incluindo o tal terço, na Galeria Newton Navarro, da Funcarte. O artista explicou que sua obra representa "a descolonização do corpo através da excretação do terço, um dos símbolos do domínio colonialista”.

Em entrevista ao site A Capa, o artista comentou sobre a repercussão da performance e o que pensa sobre o papel da arte. Confira alguns trechos da entrevista:

"A ideia surgiu a partir de um show da Solange Tô Aberta! que foi realizado no Dia do Índio em Salvador. Eu comprei uns terços e, na hora do show, tirei um do meu ânus. Só que, no calor e na vibração do show, o trabalho se confundiu com as luzes, fumaça, figurino, música etc. Então pensei conceitualmente e refiz a performance de forma pontual, com a nudez e o ato em si. Percebi que era uma ação 'simples' mas poderosa."

"Sei que há riscos de fortes reações. Leio na internet algumas coisas (opiniões de pessoas que leem as matérias) mas nada com um fundamento crítico para poder dialogar. ...mandaram eu enfiar um abacaxi e depois chupar... eu pensei, pensei... mas não posso roubar a ideia das pessoas (risos). Até pensei em enfiar um ananás que é mais grosso e mais doce (risos), mas desisti. (...) Os amigos acharam-na (a performance) muito forte, direta e objetiva. Entenderam a ação e admiraram a coragem e a ousadia. Ficaram muito felizes e, até hoje, estão em estado de êxtase com o trabalho. Os artistas daqui, que tem uma carreira na arte contemporânea, viram que a entrada e a realização dele no salão de Natal foi de extrema importância."

Pedro Costa em performance no grupo Solange Tô Aberta!
"Apesar de muitos salões e espaços terem o nome de 'contemporâneo', quando você faz uma proposição como a minha, percebe-se que, no fundo, é só o nome. E com o conhecimento, experiência e sensibilidade dos curadores convidados, foi possível realizá-la e, a Funcarte, aqui em Natal, não a vetou."

"No Brasil temos o caso da Márcia X que há alguns anos, com a sua imagem do terço em forma de pênis, foi barrada no Centro Cultural do Banco do Brasil em Brasília. Isso foi ótimo no sentido da mobilização dos artistas a favor da exposição da obra e em todas as questões que nos fizeram pensar criticamente."

"Qualquer religião envolve tabus, interdições, crenças fortes sobre o que se pode e o que não se pode fazer. Há valores morais envolvidos e, mais ainda, ditaduras sobre corpo, sexo, comportamento. Geralmente a instituição religiosa se torna um impasse entre o desejo das pessoas e a ética que ela aplica. Nisso, resultam conflitos, desde os internos individuais até as guerras. Então, religião também é um tema político a ser trabalhado. E arte contemporânea possui essa característica de questionar as relações de poder e da privação da liberdade de escolha. É dessa forma que eu enxergo. (O papel das artes é) fazer pensar sobre as questões atuais. Lógico que eu sou fruto de uma época e da minha história de vida. Mas, para mim, a arte tem que causar algo no corpo de quem vê e de quem realiza e, também, levar a uma confusão mental que leva a refletir. Arte é crítica, ou seja, põe em crise. Por isso artistas podem ser tão perigosos..."

A Valsa Fálica da Bailarina Pedro Costa



Utopia de cu

Enquanto muitos, mergulhados em seus preconceitos, além da religiosidade deturpada, não conseguem enxergar nenhuma possibilidade de poesia no marginalizado e democrático buraco anal, com relação às forças da arte, da criação, ainda que totalmente escatológica ou dadaística, o ânus nada mais significa do que uma das inúmeras partes da anatomia humana. E se obra de arte não possui um formato ou modelo específico, consequentemente, o cu poderá certamente fazer parte de qualquer processo criativo ou, até mesmo, ser o tema central de um trabalho artístico.

Conforme a nossa cultura que, geralmente, segrega o ânus no escopo do tabu, como algo vergonhoso ou ainda mais íntimo até do que os órgãos genitais, costumamos ser recatados com relação a esta área presente no corpo de qualquer animal, incluindo nós, seres humanos. Essencialmente, este sentimento pudico vem do conjunto de sistemas culturais e crenças místicas que, muitas vezes, ignora as próprias possibilidades naturais de nossa vivência. Além de tratar o uso erótico do reto como sodomia, de acordo com a religiosidade judaico-cristã, o machismo, por sua vez, se encarrega de tornar proibido ou no mínimo polêmico a inata perspectiva do prazer anal, até entre as relações heterossexuais.

Por outro lado, uma das especificidades das artes é o próprio questionamento ou provocação do que entendemos como norma, seja esta imposta pela cultura ou pelo preceito acadêmico e oficioso do fazer artístico. Daí surgem as manifestações de vanguarda, a arte experimental, ativista, performática, de protesto ou manifesto político ou, ainda, puramente formal, estética, movimentando as alterações nas linguagens que caracterizam cada época ou geração.

No Brasil, mais especificamente em 2013, no meio de diversas manifestações políticas, o ânus virou protagonista de muitos debates, em contrapartida à bancada evangélica ou conservadora na política, criando assim a expressão "Meu cu é laico!", evidenciando a contradição entre o que determina a Constituição Federal de 1988 e o que costuma ser exteriorizado por grupos fundamentalistas religiosos.

Sendo assim, as obras de arte podem ser estudadas, criadas ou replicadas, mas o artista e a própria arte pode surgir espontaneamente, em qualquer coisa ou em qualquer lugar, dependente ou não destas forças externas. Nas artes, de uma maneira geral e ampla, não há lugar para regras e preconceitos. Tem arte linda e cheirosa, feia e nojenta, amoral, imoral, alegre, saudável, triste, inofensiva ou perigosa - o jogo subjetivo.

E podemos evocar, resumir ou finalizar esta poética na ostentação do cu, através de uma das cenas do premiado filme Tatuagem (2013), com uma belíssima atuação do protagonista Irandhir Santos, interpretando um diretor de teatro do grupo experimental e anarquista Chão de Estrelas. Veja a cena do filme com a canção de DJ DoloresPolka do Cu:

"A única coisa que nos salva / A única coisa que nos une / A única utopia possível / É a utopia do cu

Tem cu que é amarrado / Tem cu escancarado / Tem cu muito seboso / Tem cu que é bem gostoso
Tem cu que é uma bomba / Que quando peida zomba / Tem cu que sai da linha / E tem cu que é uma gracinha
Tem cu, tem cu, tem cu (8x)
[ Tem cu para todos / Tem cu para mim / Cu para você / Tem cu para dar / Tem cu para beber / Tem cu ]
Tem cu que tem medalha / Tem cu do coronel / Que traz felicidade / A todos do quartel
Tem cu carente / Tem cu que é de parente / Tem cu que é dos outros / E tem o cu da gente
Tem cu, tem cu, tem cu (8x)
Tem cu que é democrata / E tem o cu tirano / Tem cu solto no mundo / E tem cu que faz planos
Tem cu que é zangado / Tem cu que é gozado / Tem cu que é malvado / Tem cu pra todo lado

O Papa tem cu / O nosso ilustre presidente tem cu / Tem cu a classe operária / E se duvidar, Deus tem o onipresente, o onisciente, onipotente cu"

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Cenas do filme Tatuagem (2013)

5 comentários:

  1. belissimo texto o cu é um dos objetos masi cobiçados principalment o cu masculino tem coisa melhor não o que vc acha da obcessão do cu autor?

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    1. Aí, Marcelo, Freud pode explicar com as lógicas relacionadas a nossa infância, traumas (tabus) etc. Mas acho que o fascínio pelo cu tem ligação direta (ou fio-terra, rss) com o fato de ser talvez a parte mais íntima do corpo, criando a fantasia para um ato extremamente íntimo. Obrigado por compartilhar e seja sempre bem vindo! Abraço

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  2. Eu sempre tive problemas com essa minúscula parte da nossa anatomia.O meu só me deu dor e desconforto,mas conheço vários héteros que descobriram tardiamente que sua felicidade estava no próprio cu.

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  3. eu quero dar meu cu julio 12982406739

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